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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

cidadania



Toda eleição eu levo uma das meninas comigo. Antes era a Rafaela, que foi até perceber que era "um mico, mãe", depois a Nana. No primeiro turno ela falou tanto da Marina na minha cabeça que acabei deixando de votar na Dilma para votar nela. Minha amiga Líria diz que a culpa do segundo turno é minha e da Nana. 

No segundo ela queria que eu votasse no Serra, desta vez fui irredutível. Foi uma campanha desleal, pior que  a fomos obrigados a ouvir no horário de propaganda gratuita. No último mês Nana foi uma ardorosa defensora do Serra, todos os dias, em vários momentos do dia, das mais diversas formas ela tentou me convencer a votar no Serra. 

Um dia antes da eleição ela passou muito tempo falando bem do Serra e mal da Dilma. Quem conhece a Nana sabe que quando ela quer uma coisa é quase impossível não ceder ao impulso de fazer o que ela quer só para ficar livre da ladainha. Ela é capaz de falar por horas a mesma coisa. Ao final do dia ela tentou de novo. Finalmente falei:

- Você prefere o Serra, se você fosse votar você votaria nele, mas amanhã quem vai votar sou eu, eu prefiro a Dilma e quero votar nela.

Ela não disse mais nada. Acordou no domingo animada para a votação. Quando fomos para a cabine ela olhou para a urna e disse:
- A Dilma é 13, o um e o três, viu?

Olhei desconfiada para ela, que manteve-se inalterável, digitei o número e tentei de novo:
- É esta a pessoa? - Perguntei apontando para a foto.
- Sim, agora aperta o confirma.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Se liga...




- Mãe, a Júlia disse que se eu não usar batom ela não vai ser minha amiga, droga!
- Mas a Júlia está errada, ela não era sua amiga antes? Você não usa batom e ela era sua amiga, vai deixar de ser porque você não usa agora? Diz para ela que você que não vai querer ser amiga dela assim.
- Mãe, a gente tem de respeitar as diferenças!!!!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Nada que vale a pena saber pode ser ensinado." Oscar Wilde



Eu odeio fazer provas. A estagiária me leva para a biblioteca e lê a prova para mim, ainda não sei ler, para  que as outras crianças não ouçam o que ela está lendo vamos para a biblioteca. Eu não gosto disto, mas minha mãe conversou comigo e disse que isto é justo e eu entendi. Também não sei escrever e nem todas as perguntas eu compreendo quando ela lê para mim. E quando eu compreendo não sei escrever a resposta. Minhas notas são muito baixas.

Eu queria poder falar só de coisas legais. Mas fazer provas me deixam chateada. Minha mãe disse que as pessoas normais ainda precisam aprender a enxergar as pessoas especiais. A gente acaba sabendo de histórias de outras crianças especiais. Tem uma escola aqui que resolveu o "problema" colocando todas as crianças de inclusão na mesma sala. A diretora desta "escola", para piorar a situação, para punir um menino "normal" que tava fazendo bagunça colocou ele para passar a tarde na sala das crianças especiais. Tem uma colega lá da clínica que frequentamos que foi recusada numa escola particular conhecida aqui de BH. O que sente uma mãe quando uma escola que é mantida pela igreja que ela frequenta recusa a matrícula de sua filha? Isto sem contar as histórias que ouvimos de crianças especiais que são deixadas no cantinho, que não são levadas para aulas de educação física, para o recreio, que não participam das festas das escolas ou das apresentações. E olha que nem falamos ainda da acessibilidade.

Quando minha mãe faz as tarefas comigo ela vai perguntando até eu entender a pergunta,ou quando eu não entendo ela me ajuda a compreender. Ela diz que fica feliz quando eu, depois de tentar muito, olho para ela e digo: -Legal!!! Ela anota as respostas para mim ou, quando são poucas palavras, eu mesmo anoto. Ela vai ditando a palavra para mim, ela repete muitas vezes e eu vou escrevendo a palavra devagar, sílaba por sílava. Ela sabe que muita coisa vai contra o que os professores super experientes acham que é o jeito correto de ensinar, mas isso que é o bom de ser mãe. Ela não precisa se importar com isto. Ela pode olhar além dos livros e me enxergar. O que ela quer conseguir é o meu "Legal!!!" Ela sabe que muitas daquelas questões que são riscadas nas minhas provas eu saberia responder...

Minha mãe sente muito orgulho do que sou. Os médicos disseram que eu viveria mais uns seis meses. Isto, quando eu tinha dois anos e meio. Hoje eu tenho doze anos e estou a todo vapor. Ela costuma fazer uma comparação. Quando uma criança nasce com alguma deficiência ou doença, espera-se que esta criança atinja uma certa porcentagem das funções normais esperadas. Geralmente, quando esta criança é assistida e estimulada, ela supera esta porcentagem várias vezes. Uma pessoa "normal" nasce com 100% de possibilidades. Quantas pessoas vocês conhecem que atingiu 100% de seu potencial?