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domingo, 18 de abril de 2010

Um Outro Olhar

Estávamos parados no sinal da Av. Senhora do Carmo com Contorno. Os vidros fechados e na janela do passageiro da frente apareceu um senhorzinho. Ele era bem velhinho e pedia ajuda. Enquanto meu pai procurava moedas a Giovana começou a bater no vidro. - Abre, abre, abre... Confesso que só abri porque aquele senhorzinho me pareceu inofensivo. Ela fez tanto barulho que ele, de fora do carro notou. Olhou para mim meio sem graça. Eu abri. Giovana chamou o moço, estendeu a mão para ele e perguntou seu nome, se ele tinha filhos, como eles se chamavam. O homem se esqueceu das moedas, e começou a conversar com a Nana, sempre segurando em sua mão. Ele ficou tão feliz, que só sabia agradecer, contou que tinha netos, elogiou a beleza da Nana e o sinal abriu. Ele se foi e esqueceu as moedas para trás.

Às vezes penso que ser normal é alguma espécie de doença. Quantas pessoas normais abririam a janela e perguntariam da vida de um homem velho, negro, mal vestido e mendigo?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Primeira Carta de Amor

Eu tinha uns 10 anos quando recebi meu primeiro bilhetinho de amor. Eu, minha mãe e minha irmã tínhamos ido no botequinho da Denise, lá no bairro Pompéia, comer uns churrasquinhos com os colegas do trabalho da minha mãe. 

Já era de noitinha e estávamos esperando o ônibus em frente a um bar fechado. Era uma casa velha. Em cima tinha uma casa e embaixo uma garagem onde era o bar. De repente saiu um moço na varanda e olhou para nós. Eu, como sempre ria muito das conversas da minha mãe com os amigos dela. Nessa época eu ainda não usava cadeira-de-rodas e estava no colo dela. O moço ficou olhando a gente por muito tempo. Ele começou a perguntar bem alto: -"Ei, qual o seu nome?" - Perguntou isto um monte de vezes. 

Todo mundo pensou que ele tava paquerando a Maíra, uma amiga muito bonita da minha mãe. De repente ele saiu, abriu o bar e ficou revirando umas coisas, revirava e resmungava umas coisas que ninguém entendia. Todo mundo ria dele. Diziam que ele estava meio bebum. Aí ele parou de revirar as coisas e veio em nossa direção. A Maíra até ficou com medo e se escondeu atrás do Hugo. Mas ele chegou perto de minha mãe e estendeu a mão para mim. Eu o cumprimentei e ele perguntou meu nome. Respondi claro. Ele disse que eu era linda e me deu esse bilhetinho aí. 

Todos ficaram bobos de ver. Eu não. Minha mãe guardou o bilhetinho no meio das nossas fotos. Ela disse que é minha primeira carta de amor e que cartas de amor devem ser guardadas.